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 Procissão - Festa na Terra

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MensagemAssunto: Procissão - Festa na Terra   Ter Nov 25, 2008 10:46 am

Festa na terra.
Festa rija – um bom programa de facto.
Também como é preceito, ninguém quer ficar atrás de ninguém. Aliás,
todos se comprometem a fazer boa figura. A dar o seu melhor. Para
também não darem azo a alguém ter que dizer.
Vários dias, entre outras coisas, Para aquele feliz reencontro e
salutar convívio entre os filhos da terra. Para quem está fora e
sobretudo para os emigrantes, mais do que o ansiado e mais que
merecido regresso a Portugal; é o voltar à sua terrinha querida. É o
voltar a casa – à sua velha casa ou à nova casa, já “conquistada” no
difícil labor de terras estranhas, mundo fora.
Assim, a festa da aldeia representa o auge daquele mês incompleto de
férias e a procissão, mais do que o ponto alto da festa religiosa em
honra do seu padroeiro; é aquele momento em que todos saem à rua e se
revêem ao fim de um ou até, muitos anos. De facto, na volta quase
total à aldeia, que a procissão propicia, verificamos quem cá está
este ano – salvo, algumas desonrosas excepções, que nem aos santos
abrem as janelas! Pois, por aqui também há desses. E o que era uma
raridade noutros tempos, agora tem tendência, infelizmente, para se
pegar. São de facto, cada vez mais as pessoas que se “fecham em
copas”, como que isolados do resto do mundo e fora do ritmo próprio
das próprias vidas.
Esses, também o pessoal já não começa a estranhar
a sua ausência. Contudo, cá na minha aldeia e felizmente, as excepções
são ainda, mesmo excepções, ao contrário de muitas outras – talvez por
serem maiores, talvez por serem menos bairristas, talvez por terem
mais com que se entreterem ou talvez por nada disto. Talvez,
simplesmente, só por não serem tão genuínas, tão amigas, tão alegres,
tão tradicionalistas, tão entusiastas, tão comunicativas, tão...
Mas se algum não aparece e se isola mais, há sempre quem diga:
- Parecem bichos fugidios, escondidos na sua toca.
- “Fazem cá uma falta como a fome” – acrescenta outro.
De qualquer modo, a procissão ainda consegue ser, a mais cabal
demonstração de fé de grande parte da população – dos paroquianos. É a
sua religiosidade e respeito, focada em preces, algumas promessas, o
gosto de enfeitar e de ver. E votos, desejos e orações de renovados
pedidos.
É como até na religiosidade somos interesseiros – pedimos através da
oração: é o “rogai por nós” da Avé Maria; o “venha a nós” do Pai
Nosso; e até a Confissão acaba em mais um pedido, de “rogueis por mim
a”! Tudo no sentido da melhor recompensa da vida.
Finda a procissão, digamos que toda a festa é mais livre e mais solta,
cumprida que está a principal e essencial componente religiosa.
Para muitos, o respeito à já não é o que era – à semelhança de muitas
outras coisas, aliás – mas também, ninguém lhe consegue ser totalmente
indiferente. Seja como for, ainda hoje aperaltamo-nos a preceito,
colocamos as melhores e mais vistosas colchas às janelas e varandas,
primamos no aperfeiçoamento do jardim e na limpeza do arruamento.
Temos os nossos convidados a preparamos a melhor e mais convencional
de refeição para o domingo da festa.
- O quê, assar-se o leitão para a segunda-feira? Mas, é que nem pensar!
- Mas, nós para domingo já temos tanta comida!
- Mas, eu quero lá saber. Onde é que já se viu guardar as coisas para
segunda-feira. Nem antes, nem depois. Sempre tudo foi e há-de
continuar a ser ao domingo. Ora essa – à segunda-feira!!!
Depois do abuso próprio do almoço principal; eis que se segue a meio
da tarde toda a festa religiosa: missa seguida de procissão. E até o
Sr. Padre trás aquela opa especial – para as cerimónias especiais –
toda bordada à mão, riquíssima e de um requinte... dourado. Uma
obra-de-arte de facto.
As bandeiras de sempre abrem toda a procissão e igualmente os nossos
velhinhos santos, orgulhosamente enfeitados, tentando quase sempre
demonstrar o empenho e um gosto a superar os outros anos. E o povo
gosta e aprecia.
Antigamente também era assim. Só as roupas tinham que esperar e
esperar, até que o dia da festa chegasse, para poderem finalmente ser
estriadas. E haviam todos os anos anjinhos e as ruas eram decoradas
com cordões de bandeirolas multi-coloridas.
Ao longo dos tempos, a religiosidade marca o tempo e segura a tradição
– só os figurantes vão mudando e se vão transformando.
Eu, “graças a Deus”, nunca falhei à procissão, desde bébé de colo –
até penso que é a minha primeira fotografia; vestido de anjinho e ao
colo do meu pai – passando pela criança que segurava o cordão de uma
bandeira, até ao rapazote a carregar feito homem, um andor e agora,
como ontem, a levar o pálio, que destaca e protege o Sr. Padre, com a
cruz e o cálice entre punhos.
A música este ano, vinha com um passo mais lento do que o normal e o
maestro ainda veio avisar o Sr. Padre, que era aquele o passo certo de
uma procissão solene – “ora querer ensinar a missa ao padre”, deve ter
pensado o próprio – e continuou como se nada fosse; até que o maestro
voltou à carga logo de seguida, mas agora a pedir:
- Se pudesse ir com o passo ligeiramente mais lento.
Mas, nem assim o pedido foi atendido. Assim, a banda aos poucos ia-se
atrasando, para depois acelerar o passo entre o compasso das
diferentes musicas. Mesmo assim, toda a procissão teve que estacar por
duas vezes à espera da banda – coisa nunca antes presenciada por estas
bandas. Só que ao cruzarem a capela, lugar acima, é que os músicos se
aperceberam do que ainda tinham para andar... e tocar. Evidentemente,
que não mais se atrasaram daí por diante – era o atrasas! Até passou a
ser um tanto ao contrário, quase a “empurrarem” com o pálio para
ritmos desaconselháveis. Sem querer e afinal já íamos todos mais
rápido. Foi então, que disfarçadamente quis colocar à prova uma
possível mudança de ritmo de toda a procissão e à que retardar o passo
um nadinha, passando-o a arrastá-lo um tanto. E como é possível um
único elemento ao prender o pálio u pouco, provocar sem os outros
darem conta, um ligeiro abrandamento na marcha de toda a procissão.
Experimentei, consegui e logo depois, prossegui(mos) como se nada
fosse – e não foi!
Mas, o mais interessante de tudo e com todo o respeito e afirmação
pela tradição e igualmente, com todo o respeito e devoção pelo acto
religioso, foram as minhas impressões e observações ao longo de todo o
percurso da procissão – todos os anos repetido.
Assim, comecei por reparar naquele Cedro do Atlas, exemplar único na
aldeia; que todos os anos lhe aprecio o porte, o crescimento e a
beleza. Desde que o plantaram, era ele muito pequenino – já para aí à
mais de uma dúzia de anos. E este ano está pela primeira vez com
frutificação, ainda mais bonito; preenchido, maduro, completo –
atingida assim a sua maturidade sexual.
E logo de seguida, confirmo o sucesso daquela plantinha, que de ano
para ano, vai enchendo e decorando numa sugestiva bordadura, aquela
viela e várias frentes de casas, ganhando espaço e poder de aceitação
entre os moradores, apesar da sua origem longínqua – da África do Sul.
As pessoas estão afeiçoadas a elas e rendidas perante a sua inegável
capacidade, robustez e valor ornamental. De facto, quantas plantas é
que nascem assim por entre as pedras da calçada e os cantos e esquinas
calcinados das ombreiras das portas? E sem tratamento nenhum, lá
nascem, rebentam, brotam todos os anos dum chão empedernido e se fazem
grandes em três tempos, desdobrando-se numa floração abundante e
bonita, para que por esta altura do ano, enfeitem a preceito toda
aquela viela e várias frentes de casa. Portanto, ela vai conquistando
merecidamente espaço e granjeando simpatias; sendo agora uma imagem de
marca daquele troço do lugar e das pessoas e casas, que lhe dão
guarida. Parece uma família (e é), que se instalou cheia de sucesso e
que vai crescendo muito naturalmente com o passar dos anos.
Também lá mais para a ponta do lugar e já há muitos anos, lá apareceu
aquela novidade de jardim, que levou toda a “procissão” a reparar em
si e que de então para cá, foram aproveitados todos os seus filhos
(novos rebentos com uma ponta de raiz), para ganharem um cantinho
especial em muitos das casas da aldeia – tudo da mesma proveniência,
tudo em família. Aliás, um pouco como a própria aldeia nas suas trocas
de produtos e naquele dar com gosto das suas coisas; sejam batatas,
vinho, azeite, feijão verde, carne ou flores. Sim, flores e plantas,
arbustos, ramagens e fruta. Tudo do que a terra dá e o vizinho e a
família não tem por enquanto.
E reparei naquela casa fechada, a caminho do abandono – pois é
verdade, o ano passado morreu o Ti... e repentinamente senti saudades
da sua curvada e simpática imagem, acenando cordialmente. E quando era
mais novo, na posse de todas as suas capacidades físicas – pois, que
homem de trabalho. E depois, num instante estava preso às muletas e
noutro instante, ficou preso ao travesseiro, até... que a morte o
levou. E avivaram-se-me de repente todas as suas imagens, e
particularmente aquelas em que o via de pálio firmemente preso entre
as mãos, depois em imagens repetidas ano a ano, já sem se poder mexer
convenientemente à porta de casa. Primeiro amparado a uma bengala,
depois de muletas e finalmente, em cadeira de rodas; mas sempre de
sorriso cordial a esconder o sofrimento, na dependência dos outros e
no enorme peso de todos os anos.
E reparei depois, naquela outra casa já a ameaçar ruir e a outra que
já ruiu, feito agora estacionamento de grande jeito para toda a
vizinhança. Depois, aquela casa já acabada e outra, que nem pensava
existir e que já se encontra toda erguida. “De quem é?” Perguntei de
soslaio (dic) apontando com o queixo. “Ah, é!” Exclamei admirado para
mim mesmo. Depois, continuei nas minhas cogitações. Só é pena,
continuarem a edificar casas novas por cima dos muros antigos, para
não terem que recuar com a casa e mesmo que esta fique com umas
inestéticas esquinas vivas. Tudo num rigor de milímetros. E depois,
também é um castigo para deixar o carro nestas ruas mais apertadas.
E quer as pessoas que também vão na procissão, como as que assistem à
sua porta ou janela ou ainda, nos entroncamentos, largos e outros
pontos de passagem, lançam-nos – e nós retribuímos de igual modo –
aquele cumprimento sorridente, de aceno suave ou com aquele típico
piscar de olhos. E pensava para comigo: “Eh pá, que já não via aquele
à quase vinte anos. E está bem conservado. Aquela, é que deve ser a
sua mulher e aqueles serão os filhos – assim já tão grandes! Nã, devem
ser os sobrinhos! Ou talvez sejam mesmo os filhos, à velocidade com
que eles hoje crescem!”
...

Autor - José Porvinho/2008
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MensagemAssunto: Continuação da Festa na Terra   Ter Nov 25, 2008 10:47 am

E mais à frente, reparto naquelas duas miúdas e mais naquelas e
noutras ainda: “Eh pá, tão giras que estão a ficar as filhas do...
Miúdas, miúdas já eram; agora são é graúdas – umas mulheraças mesmo,
de se lhe tirar o chapéu! E ficam na retina destes rapazes mais
espigadotes, de certeza – só se forem cegos! E aquelas ali, também já
estão todas escaroladas. E ali o Ti Coiso, tão acabado que ele está.
Teria andado doente ou quê? E aqueles rapazes acolá, que já nem os
conheço – serão de cá? Pela pinta, devem ser os filhos do... E ali o
Ti Manel e a Ti Estrudes, que se não fosse a procissão, acho que já
não os via à séculos. Assim e até ver, sempre nos vamos cumprimentando
todos os anos. Eu também cá venho pouco e eles sempre foram de se
enfiarem no seu ninho e ponto final parágrafo, assim...
Por vezes, trago daquelas saudades de quando era um pimpolho à solta –
um verdadeiro menino de rua... mas de aldeia. E de uma aldeia, em que
ainda hoje toda a gente se conhece. Pois, uma aldeia em que à quase
quatro décadas atrás, se podia viver feliz pelas suas ruas e em que
todas as casas eram de gente amiga, de portas quase sempre
escancaradas e os seus donos, quase invariavelmente, a receberem-nos
de braços abertos. Sim, claro que haviam excepções. Mas até a esses,
eu no meu tempo de gaiato, lhe conheci a casa. Aliás, consegui na
altura, entrar em todas as casas da aldeia –nenhuma me foi totalmente
estranha; nem a da Dona... que estava sempre fechada e que não recebia
ninguém. Também já na altura, era um exagerado vagabundo. Exagerado,
mas feliz. Vagabundo, mas feliz. Sempre de casa em casa, rua abaixo e
rua acima, e pronto a entrar em quintais e em subir a Ribeira.
Lembro-me destes e doutros tempos e da procissão de então . E de como
ela pouco mudou de então para cá. É, a procissão faz-nos lembrar esses
outros tempos de uma forma muito peculiar. E de vez a quando, lá se
fazem umas visitinhas a uma dessas casas amigas e repletos daqueles
amigos de sempre. Particularmente aquando da outra data grande lá na
terra, também domingo à tarde – a visita Pascal. E tantas outras casas
que ficaram para trás – para outra altura, para a próxima visita à
aldeia.
A aldeia, pelo menos a minha; que não é tão pequena como isso, tem
ainda muita vida própria, propiciando fáceis encontros e mais
programas ainda por acontecer; nem tão grandes como isso, em que aí as
pessoas já não sentem da mesma maneira e já não se identificam tanto
como isso. Até as cumplicidades e os encontros são mais restritos e
menos comuns, perdendo-se com facilidade, os motivos e as razões do
mais são convívio e do mais salutar bairrismo. E então para quem está
longe e durante muito tempo, chega a ser enternecedor o reencontro
com a aldeia. E encontra todo um povo de braços abertos, num
espectacular acolhimento.
Ao longo das ruas, os verdes recolhidos e espalhados abundantemente
por todo o chão, emprestam ao ar um aroma especial e único nestes
momentos. Comecei a dar conta do cheiro forte do alecrim pisado, que
apesar de muito agradável, cheira a Páscoa. De facto, é esse o arbusto
usado quase em exclusivo na Páscoa. A Páscoa tem, de facto, o cheiro
do alecrim.
Conforme íamos avançando, os verdes mudavam entre as variedades mais
corriqueiras, as mais típicas dos campos locais e uma ou outra
cultivada nos jardins das casas. As mais aromáticas para mim, são o
sempre muito agradável funcho, a erva-cidreira e a hortelã. Esta,
julgo que até nem era nada comum encontrá-la a verdejar o chão
procissional, neste decoroso e agradável tapete. Mas, pensando melhor,
o cheiro mais típico da Festa da aldeia, sempre foi o da hortelã. Da
hortelã que levam os negalhos. Ah, que saudades daquela caçoila de
negalhos, assada juntamente com a chanfana. Tudo cheiros e sabores
muito próprios da Festa de uma qualquer aldeia da Bairrada.
Antigamente, a festa começava logo na segunda-feira antes, com os
rebanhos a invadirem as ruas, como um feliz anúncio do que estava para
vir. A cabra era cuidadosamente escolhida, para na quinta-feira já se
ter a chanfana assada. Também deve ser por isso, que agora as
encontramos espalhadas pelo chão; pois os negalhos são hoje em dia,
uma iguaria cada vez mais rara. De facto, os negalhos sempre deram
muito trabalho. Tanto, que agora já não há praticamente que os faça –
pelo menos na minha família, para nossa pena.
Dei ainda conta daquele arbusto mais raro e com um porte já digno de
registo, que o fazia já um exemplar único; mas que lhe deram uma poda
daquelas que não se fazem. Só que pelos vistos, estava a tapar aquela
janela, no qual parece que ninguém lá fica, mas enfim... ah, também se
não fosse assim, agora não se via a janela!
Passada a volta do Carril, na quinta maior, os potros nascidos o ano
passado, estão agora uns elegantes folgazões. Lindos. Que beleza
fabulosa é uma família de equinos à solta e logo com gémeos.
E como sempre lá continua aquele telhado, orgulhosamente composto com
as abóboras maiores e mais bonitas da produção do ano. E é para que
toda a gente as veja. E saiba, quem é que é capaz de ter das melhores
novidades e obter da terra os melhores troféus. De facto, aquelas
abóboras fantásticas, assim dispostas no ponto mais alto do palheiro e
bem à vista de quem passa; são verdadeiros troféus entronizados e no
melhor palco. Assim, não só se conservam melhor, podendo serem
guardadas pelo máximo de tempo possível, como regalam a vistinha deles
e de quem passa. Reparando melhor; de facto, são exemplares dignos de
serem expostos. Aliás, soube mais tarde, que já lhe tinham comprado
três das maiores e mais vistosas, para estarem expostas num
restaurante da zona. E isso também é mais um troféu para a própria
aldeia. Sim, sim; porque aldeia que dá vinho daquela qualidade, também
tem tudo para dar abóboras daquele calibre.
Noutra curva na ponta do lugar, dei conta do corte daquele pinhal
lindo, que conhecia praticamente como tal, desde menino. É uma perda
óbvia, que me entristeceu, mas teve que ser, pois já tinha porte e
idade mais suficientes e um ou outro pinheiro a ameaçar cair, tal era
a pendente que já tinha ganho. Também com as árvores é a lei da vida –
aqui compreensível o seu corte raso.
Mas logo de seguida, alegrei-me com a visão, ao longe, de uma nova
vinha. Sobretudo, porque também aumentou a distância das casas até à
floresta mais sensível aos mais que muitos e nefastos incêndios
florestais. E logo de seguida, deparo com uma vinha bem tratada,
carregada de boas uvas, numa abastança rica que o tempo há-de cuidar
de amadurecer convenientemente. De qualquer modo, este ano já vão mais
adiantadas e com a chuva da semana passada, que veio mesmo a calhar,
segundo me testemunharam já, alguns dos muitos peritos locais, o ano –
tudo o indica – irá deixar um vinho de muito boa qualidade. Não, como
os que ficam gravados como de referência e lembrados pela sua
qualidade especial; mas também este ano a produção é maior e como tal...
E mais à frente aquele pedaço de vinha a entrar na decrepitude própria
do mal-amanhada: Pois, pois, esta vinha é do... e ele agora já não
pode. Tão bem zelada que ele trazia sempre a fazenda toda – e era (é)
mais que muita. É, vai tudo atrás dos donos e é bem certo – imaginava
já eu as conversas ocorridas a propósito deste caso, por muitas das
casas da aldeia. Também aqui nada de novo – volta a ser a lei da vida
e das prioridades. Mas, pensando melhor e julgando com isenção; é
normal, é natural e também não é assim uma verdade absoluta. Pelo
menos, cá por terras bairradinas, até que há muita boa gente mais
jovem cheia de genica a fazer coisas por tanto chão de terra fora. E
mais, mérito lhe seja dado, a fazerem tão bem como nunca os seus
digníssimos antecessores o conseguiram. Aqui ainda continuamos a ter
renovação de quem sabe, de quem faz e de quem quer mais. Terra grande,
afinal! Gente grande, a fugir ao triste fado nacional de abandono
sistemático dos territórios mais rurais do nosso país. E existe
empreendorismo, inovação, marketing e tudo o resto.
Outras impressões ficaram por observar com toda a certeza e outras,
muitas, ficam aqui por contar.
Ordeiramente a procissão recolheu.
E o povo também recolheu. Algum a suas casas, outros ao café, para
reporem agora as conversas em dia e os líquidos entretanto perdidos.
Isto apesar do abastecimento de água que os mordomos foram
criteriosamente distribuindo pelos mais sedentos.
Mas, por ocasiões da Festa, nada como uma garrafinha bem fresquinha
para satisfazer todos os muitos bebedores, mais sequiosos e ansiosos.
E o convívio é são e os reencontros são fraternos – alguns ao fim de
muito tempo – passam agora às agradáveis palavras e àqueles abraços de
todo o tamanho.
- Chega-me cá esses ossos. Então sempre bons? E a família?
- Felizmente, tudo bem.
- E logo vais ao arraial?
- Claro; alguma vez faltei?
- Então logo bebemos mais um copo.
- Ai, isso é mais que certo. Se fosse só um!
- É os que forem, desde que nos portemos bem!
- E alguma vez nos portámos mal!?
E a festa lá continuou num ambiente de arromba.
E todas as gerações lá continuam a irem... divertir-se.
- Que boa que este ano está a Festa – diz alguém, como também já foi
dito por todos os outros anos passados. E os outros ouvem e concordam.
Também são eles que sempre fizeram a Festa assim... bonita, grande e
especial.

Autor - José Porvinho/2008
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MensagemAssunto: S. Bartolomeu - Grada   Ter Nov 25, 2008 10:52 am